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O outro não é objeto, é palavra!
27-09-2026 19:42
Vivemos, muitas vezes, aprisionados em nossas próprias interpretações.
Olhamos para o outro e, sem perceber, construímos imagens, conceitos e expectativas que procuram explicá-lo.
No entanto, existe uma dimensão mais profunda no encontro: o outro não é objeto, é palavra.
Quando nos aproximamos verdadeiramente de alguém, descobrimos que sua realidade não pode ser reduzida ao que imaginamos.
O outro não é algo que simplesmente vemos, mas é alguém que escutamos.
As Escrituras nos orientam: “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar” (Tiago 1.19).
A escuta precede a fala, pois “responder antes de ouvir é estultícia e vergonha” (Provérbios 18.13).
Não se trata apenas de falar sobre aquilo que compreendemos a respeito do outro a partir de nossa limitada percepção e imaginação.
Há algo que se revela a nós.
O outro, como palavra, revela algo que surge como novidade e nos causa assombro, diferente de tudo o que havíamos pensado ou imaginado.
Há aqui uma sabedoria delicada: compreender pode ter sua importância, mas não basta.
A revelação é um movimento distinto da compreensão.
Deus mesmo nos lembra: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos” (Isaías 55.8).
A vida humana é maior do que nossos esquemas mentais e nossas tentativas de explicação.
Existe algo de inesperado que emerge quando a escuta se amplia e se torna verdadeiramente disponível.
Por isso, a escuta é um chamado.
Ela nos convida a sair da defesa, da pressa e do julgamento.
O grande mandamento de Israel começa justamente com um convite à escuta: “Ouve, Israel” (Deuteronômio 6.4).
Escutar é oferecer espaço para que o outro se aproxime, se revele e nos surpreenda.
É criar um lugar de acolhimento onde a pessoa possa manifestar aquilo que carrega em seu coração.
Jesus, em diversos momentos, demonstrou que ouvir é um ato de amor.
Antes de responder, Ele perguntava, acolhia e permitia que as pessoas expressassem sua dor, sua esperança e sua fé.
Assim, a verdadeira escuta torna-se uma forma de serviço e cuidado.
Quem ama se dispõe a ouvir, pois “o amor é paciente” (1Co 13.4) e busca acolher sem julgar.
No fundo dessa experiência, percebemos que há uma mensagem amorosa que nos alcança.
O outro, como palavra, comunica algo de sua própria humanidade, criada à imagem de Deus (Gênesis 1.27).
Surge, então, um reconhecimento silencioso da dignidade humana, capaz de sustentar o encontro e aprofundar a intimidade entre as pessoas.
O amor torna-se vínculo, conforme ensina o apóstolo Paulo: “Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3.14).
Por fim, a escuta também se manifesta na resposta.
Quando não respondemos, revelamos que aquilo que ouvimos não encontrou lugar em nós.
A Bíblia ensina que não basta apenas ouvir, mas é necessário acolher e corresponder: “Sede praticantes da palavra e não somente ouvintes” (Tiago 1.22).
O acolhimento do que o outro nos revela também se expressa na forma como nos revelamos em resposta a ele.
Assim, o diálogo transforma-se em um caminho de mútua transformação, no qual cada pessoa deixa de ser objeto de observação para tornar-se palavra viva, fonte de revelação, alimento e cuidado.
Nessa dinâmica, cumprimos a exortação apostólica: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6.2).
Afinal, carregar a história do outro começa, antes de tudo, por escutá-lo.
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Texto de Carlos José Hernández (psiquiatra argentino, doutor em medicina) e Clarice Ebert (psicóloga - CRP08-14-038, terapeuta familiar e de casais e mestre em teologia).
Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora.
Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família).
Membro e docente de EIRENE do Brasil.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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