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O cuidado que nenhuma tecnologia consegue substituir
12-09-2026 00:43
Há uma contradição interessante no nosso tempo.
Nunca tivemos tantos recursos para facilitar a vida e, ao mesmo tempo, continuamos enfrentando necessidades profundamente humanas que nenhuma ferramenta conseguiu resolver.
Temos acesso imediato à informação, podemos conversar com alguém que está do outro lado do mundo em segundos, encontramos respostas para quase qualquer dúvida e contamos com tecnologias capazes de organizar boa parte da nossa rotina.
Ainda assim, continuamos precisando de cuidado, direção, descanso e presença.
Talvez porque algumas necessidades humanas não sejam problemas que a tecnologia possa solucionar.
Precisamos ser conhecidos.
Precisamos ser ouvidos.
Precisamos de pessoas que percebam quando alguma coisa não está bem, mesmo quando não conseguimos explicar o que está acontecendo.
É nesse ponto que uma das imagens mais conhecidas das Escrituras volta a ganhar uma profundidade que pode passar despercebida.
“O Senhor é o meu pastor.”
Davi poderia ter descrito Deus de muitas maneiras.
Escolheu uma figura que, para sua época, representava proximidade, direção, proteção e responsabilidade.
Um pastor não apenas aponta uma direção e desaparece.
Ele acompanha o caminho.
Conhece o terreno.
Reconhece os perigos.
Sabe quando é necessário avançar e quando é necessário parar.
O Salmo 23 não apresenta uma vida sem dificuldades.
Pelo contrário.
Em determinado momento, Davi fala sobre o vale da sombra da morte.
O vale faz parte da caminhada.
O que muda é a presença.
Isso é diferente de muitas mensagens religiosas que prometem uma espécie de blindagem espiritual contra os problemas da vida.
A Bíblia não apresenta essa promessa.
O próprio Salmo 23 não diz que o vale deixará de existir.
Diz que, mesmo ali, existe companhia.
Essa perspectiva também confronta uma ideia muito valorizada atualmente: a de que ser forte significa não precisar de ninguém.
Existe valor em autonomia, responsabilidade e maturidade.
Mas ninguém foi criado para carregar sozinho todo o peso da existência.
Reconhecer limites não é fracasso.
Admitir que precisamos de direção não nos torna menos capazes.
Talvez o problema seja que aprendemos a cuidar de tantas coisas que esquecemos como receber cuidado.
Cuidamos da carreira, dos filhos, dos negócios, das contas, dos projetos e das pessoas que dependem de nós.
Continuamos funcionando mesmo quando estamos cansados.
Muitas vezes, a única coisa que não fazemos é parar para reconhecer que também precisamos ser conduzidos.
É justamente aqui que a imagem do Salmo 23 encontra sua plenitude em Cristo.
No Evangelho de João, Jesus não apenas utiliza a linguagem do pastor.
Ele afirma: “Eu sou o bom pastor”.
E acrescenta que o bom pastor dá a vida pelas ovelhas.
A imagem deixa de ser apenas uma metáfora sobre proteção e se torna uma revelação sobre quem Cristo é.
Ele não oferece apenas instruções para a caminhada.
Ele se coloca no caminho.
Isso muda também a maneira como entendemos confiança.
Confiar em Cristo não significa saber antecipadamente como cada problema será resolvido.
Significa reconhecer que nossa visão é limitada e que a fidelidade de Deus não depende da nossa capacidade de prever o futuro.
Há momentos em que teremos clareza.
Em outros, teremos apenas o próximo passo.
O Salmo 23 continua atual porque não fala para uma geração específica.
Fala para seres humanos que, em diferentes épocas, continuam experimentando medo, cansaço, perda e desejo de encontrar algum lugar de descanso.
É por isso que a sua Palavra continua atravessando séculos e gerações.
Não porque prometem uma vida sem vales, mas porque apresentam um Pastor que não abandona o caminho quando o vale começa.
Em uma época que nos ensina a resolver tudo sozinhos, existe algo profundamente contracultural em reconhecer que precisamos ser conduzidos.
E talvez a maturidade da fé não esteja em ter todas as respostas, mas em saber em quem confiar quando elas ainda não chegaram.
Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África.
Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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