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Do Self à exploração do ‘Eu’: A renovação da mente

  • 31-12-1969 21:00

  • Do Self à exploração do ‘Eu’: A renovação da mente

    E, se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Lucas 9:23)

    Vivemos numa era obcecada com a otimização do self.

    A máxima “Seja sua melhor versão” soa como um convite inofensivo à excelência, mas carrega consigo uma antropologia profundamente contrária ao Evangelho.

    Enquanto a cultura pós-moderna promove uma autoafirmação infinita, derivada de um humanismo secularizado, Jesus Cristo convoca à negação e ao encontro com uma identidade que nos transcende.

    Este texto busca desmontar, à luz das Escrituras e do pensamento crítico, os pressupostos desse mantra e revelar suas implicações para a fé e a sociedade.

    O Evangelho, boas-novas da mensagem de Jesus, não é um projeto de autoaperfeiçoamento, mas de ‘até que Cristo seja formado em nós’ (Gálatas 4:19).

    Vai além da melhor ‘versão’ para o ‘convém que Ele (Jesus) cresça e que EU diminua’ (João 3:30).

    Vivemos dias de tensão entre a linguagem terapêutica moderna e a antropologia bíblica.

    Por isto, entender onde a frase acima, “Seja sua melhor versão”, pode ser aceitável e onde entra em conflito com a Bíblia.

    A fragmentação da identidade humana não é apenas um fenômeno psicológico, mas também um projeto cultural, político e ideológico, que enfraquece o indivíduo, dissolve vínculos naturais e facilita controle social.

    A frase, “Viva a sua melhor versão”, não é neutra

    O que ela pressupõe (implicitamente)? Mesmo quando bem-intencionada, a frase carrega pressupostos filosóficos claros, por estar alicerçada em três axiomas da pós-modernidade:

    - O Eu é fluido e multiversão: Pressupõe um self fragmentado, onde a identidade é um projeto em constante revisão, não uma realidade recebida.

    - A autorreferencialidade: O critério para o “melhor” reside no próprio indivíduo ou em padrões sociais mutáveis, não em uma referência externa e objetiva (Deus, a virtude, o bem comum).

    - A salvação pela performance: A plenitude é alcançada por esforço contínuo de autoaperfeiçoamento, uma salvação secular pela superação pessoal.

    Esses pressupostos vêm mais da psicologia humanista e do individualismo moderno do que da fé bíblica.

    A Antropologia Bíblica: Unidade, Queda e Redenção

    A Escritura oferece um contraponto radical a essa visão:

    - Unidade, não fragmentação: O homem é uma unidade psicossomática criada por Deus (Gênesis 2:7).

    Não somos “versões”, mas uma pessoa integral, feita à imagem de Deus (Gênesis 1:27).

    Nossa dignidade é intrínseca e conferida, não construída.

    - Problema radical, solução externa: O dilema humano não é falta de evolução, mas de redenção.

    A Bíblia diagnostica uma queda (Romanos 3:23) que corrompeu essa imagem.

    A solução, portanto, não é uma “melhoria”, mas uma regeneração (2 Coríntios 5:17; João 3:3).

    Não é descobrir minha melhor versão, mas permanecer em Cristo.

    Nova criatura não é ‘melhor versão da antiga’.

    - Transformação teocêntrica ≠ autoaperfeiçoamento: A mudança desejada por Deus é uma metanoia que ocorre “pela renovação da mente” (Romanos 12:2), para discernir a vontade de Deus.

    É um processo de conformação à imagem de Cristo (Romanos 8:29), não de autorrealização.

    O caminho é claro: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30).

    Onde a metáfora falha: da moratória ao perigo

    Se alguém usa “viver a melhor versão” como metáfora moral, significando: abandonar o pecado, amadurecer no caráter e crescer em virtude, então, biblicamente, o conceito correto seria: Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor (2 Pedro 3:18).

    Em um sentido estritamente moral superficial, “ser melhor” pode parecer alinhado com exortações bíblicas ao crescimento.

    No entanto, o vocabulário é enganoso e perigoso porque:

    - Desloca o centro: Move o foco da imagem de Deus (objetiva) para uma imagem idealizada do eu (subjetiva e inatingível).

    - Substitui Graça Divina por performance pessoal: Troca a justificação pela fé e a santificação pelo Espírito por um projeto de auto ajustamento, gerando culpa ou orgulho.

    - Inverte a lógica do Reino: Jesus não pede “afirme-se”, mas “negue-se a si mesmo” (Lucas 9:23).

    A plenitude cristã paradoxalmente se encontra no esvaziamento (kenosis) do eu para que “Cristo viva em mim” (Gálatas 2:20).

    Contexto cultural: a fragmentação como projeto

    A popularidade deste mantra não é acidental.

    Ela se encaixa em um projeto cultural mais amplo, analisado por filósofos como Byung-Chul Han (“A Sociedade do Cansaço”) e Charles Taylor (“A Ética da Autenticidade”):

    - O Sujeito de Desempenho: A pressão por ser “sua melhor versão” cria um indivíduo explorado por suas próprias expectativas, vivendo em ansiedade crônica e auto-exploração.

    - Dissolução dos Vínculos: Uma identidade fluida e autodefinida fragiliza os laços naturais (família, comunidade, tradição), pois estes são vistos como limitantes à “autoexpressão”.

    Isso torna o indivíduo mais isolado e, paradoxalmente, mais dependente do Estado ou de tribos ideológicas para validação.

    - Instrumentalização Ideológica: Como observado, regimes totalitários e agendas ideológicas radicais têm interesse em dissolver identidades sólidas (baseadas na biologia, família ou fé) para reconstruí-las conforme sua visão.

    A multiplicação infinita de identidades subjetivas (género, orientação etc.) pode gerar uma confusão ontológica que facilita o controle por meio da oferta de “sentido” e pertencimento ideológico.

    Comprovação Bíblica CONTRA a frase

    Aqui está um ponto-chave que confirma exatamente sua crítica: Deus não pede que descubramos quem somos, mas que morramos para nós mesmos.

    Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo (Lucas 9:23).

    A frase “viva sua melhor versão” pressupõe afirmação do eu.

    Jesus ensina negação do eu.

    O foco bíblico não é o eu ideal, mas a conformidade com Cristo.

    Porque aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho (Romanos 8:29).

    Não é “minha melhor versão”, mas a imagem de Cristo.

    Comprovação NÃO bíblica (filosófica e psicológica)

    Origem na psicologia humanista - A ideia vem de autores como Carl Rogers e Abraham Maslow, que defendiam:

    - o ser humano como naturalmente bom

    - a autorrealização como fim último

    - a identidade como algo fluido e mutável

    Mas isso entra em choque com: a antropologia clássica, a filosofia cristã e até com a psicologia clínica contemporânea

    Fragmentação da identidade - Como você bem observou, a frase cria:

    - o “eu atual” (insuficiente)

    - o “eu ideal” (nunca plenamente alcançado)

    Isso gera: culpa crônica, comparação constante e ansiedade existencial.

    Filósofos como Charles Taylor e Byung-Chul Han mostram que essa lógica gera o “sujeito do desempenho”, sempre cansado e frustrado.

    Contradição com a ideia de identidade sólida - Mesmo fora da fé, escolas filosóficas clássicas (como Aristóteles) afirmavam:

    - o ser humano possui uma essência

    - o crescimento é atualização do que já se é, não invenção de novas versões

    Ou seja, até filosoficamente, “versões do eu” é uma noção frágil.

    Uma formulação bíblica e saudável

    Em vez de: “Viva a sua melhor versão”, a Bíblia nos leva a dizer:

    - “Viva conforme a imagem de Deus”

    - “Seja transformado à imagem de Cristo”

    - “Cresça em santidade e maturidade”

    - “Permaneça em Cristo e dê fruto”

    Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim (Gálatas 2:20).

    Esse versículo, sozinho, desmonta a lógica da “melhor versão”.

    Progressismo, polarização e a fragmentação do humano

    A lógica progressista: dividir para reconfigurar - O progressismo contemporâneo opera por polarização constante: homem × mulher, indivíduo × família, tradição × progresso ou identidade pessoal × ordem criada.

    Essa polarização não busca síntese, mas ruptura.

    Quanto mais o indivíduo é separado de referências objetivas (família, fé, natureza, verdade), mais maleável ele se torna.

    Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas (Zacarias 13:7).

    Biblicamente, dispersão é sempre sinal de enfraquecimento; unidade é sinal de ordem e vida.

    Comunismo e a fragmentação deliberada do “humano original”

    O homem deixa de ser imagem de Deus e passa a ser construção social - O marxismo clássico e suas derivações culturais (marxismo cultural, gramscismo) rejeitam qualquer ideia de: natureza humana fixa, ordem moral objetiva e identidade recebida.

    Para o comunismo, o ser humano é produto do meio, não portador de essência.

    Destruímos argumentos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus (2 Coríntios 10:5).

    O comunismo faz exatamente o inverso: destrói o conhecimento de Deus para reconstruir o homem segundo a ideologia.

    Fragmentação identitária como ferramenta de controle - Ao multiplicar identidades (de gênero, de raça, de pertencimento, de autodefinição infinita), cria-se:

    - confusão ontológica (“quem eu sou?”)

    - insegurança existencial

    - dependência de validação externa

    - necessidade constante de reconhecimento político

    Isso não fortalece o indivíduo — o fragiliza.

    Porque Deus não é Deus de confusão, mas de paz (1 Coríntios 14:33).

    Psicologia progressista e a manipulação da autoestima

    Da cura à militância - Parte da psicologia contemporânea abandonou o papel clínico e assumiu função ideológica: não trata conflitos internos, legitima toda autodefinição subjetiva ou substitui verdade por afirmação.

    O resultado é uma autoestima artificial, sustentada por narrativas, não por realidade.

    Especialistas que corroboram essa crítica (não cristãos)

    Carl Jung (psiquiatra) alertou: “Quando a identidade não está enraizada em algo maior que o ego, ela se fragmenta.” Ele via a perda de arquétipos objetivos como caminho para neuroses coletivas.

    Viktor Frankl (psiquiatra, sobrevivente do Holocausto) afirmou: “Quando o homem perde o sentido objetivo, ele se agarra a qualquer narrativa que alivie a angústia.” A multiplicação de identidades sem sentido transcendente gera vazio existencial, não libertação.

    Jordan Peterson (psicólogo clínico) afirma repetidamente que: identidade sem limites claros gera ansiedade.

    Sistemas ideológicos que negam biologia produzem sofrimento psíquico.

    A dissolução da família é sempre seguida por aumento de caos social.

    Byung-Chul Han (filósofo) descreve o sujeito moderno como: “Fragmentado, cansado e explorado por narrativas de liberdade que o escravizam.”

    Ataque direto à família judaico-cristã

    A fragmentação do indivíduo tem um alvo claro: a família, porque ela é: anterior ao Estado, anterior à ideologia e anterior à política.

    Não é bom que o homem esteja só (Gênesis 2:18).

    A família bíblica: ancora identidade, transmite valores, estabelece limites e protege o indivíduo do totalitarismo.

    Por isso, regimes totalitários sempre tentaram enfraquecê-la.

    Múltiplas “escolhas” como ilusão de liberdade

    A multiplicação infinita de opções identitárias é apresentada como liberdade, mas resulta em: perda de referência, instabilidade emocional, confusão moral e dependência do Estado ou da militância.

    Cada um fazia o que parecia certo aos seus próprios olhos (Juízes 21:25).

    A Bíblia trata isso não como progresso, mas como decadência social.

    Antropologia bíblica como antídoto

    A Escritura afirma exatamente o oposto:

    - identidade é recebida, não inventada

    - dignidade vem de ser imagem de Deus, não de autoafirmação

    - plenitude vem de pertencer, não de se fragmentar

    Criou Deus o homem à sua imagem; homem e mulher os criou (Gênesis 1:27).

    Essa afirmação é: simples, objetiva, estabilizadora e libertadora.

    A frase “viva a sua melhor versão”, inserida nesse contexto cultural:

    - reforça a fragmentação do eu

    - desloca o centro da identidade

    - prepara o terreno para manipulação ideológica

    - enfraquece vínculos naturais

    - colide com a visão bíblica do ser humano

    A Bíblia não chama o homem a se reinventar, mas a: Ser transformado pela renovação da mente (Romanos 12:2).

    Não segundo ideologias, não segundo narrativas, mas segundo a verdade.

    Jesus disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (João 14:6).

    Jesus está voltando! Desperta, tu que dormes e Cristo te iluminará!

     

    Fernando Moreira (@prfernandomor) é Pastor, Doutor em Teologia e Mestre em Computação.

    MBA em Vendas e Marketing.

    Membro da Academia de Letras.

    Une o conhecimento técnico, teológico e executivo.

    Escritor.

    * O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

    Leia o artigo anterior: Inveja: a semente do Anticristo no coração humano

     

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    Fonte: Guiame