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A pluralidade do pentecostalismo: Entre identidade e caricaturas

  • 31-12-1969 21:00

  • A pluralidade do pentecostalismo: Entre identidade e caricaturas

    Falar de pentecostalismo no Brasil é tratar de um dos movimentos religiosos mais influentes do nosso tempo.

    No entanto, um dos equívocos mais comuns no debate público é imaginar que o pentecostalismo seja um bloco uniforme, com uma única forma de culto, uma única teologia e uma única expressão institucional.

    Essa percepção não corresponde à realidade histórica nem teológica do movimento.

    O que chamamos de pentecostalismo é, na verdade, um fenômeno plural.

    Trata-se de um movimento que nasceu no início do século XX, marcado pela ênfase no batismo no Espírito Santo, na atualidade dos dons espirituais e na expectativa da volta de Cristo.

    No Brasil, igrejas como a Assembleia de Deus desempenharam papel decisivo na consolidação dessa espiritualidade, formando comunidades profundamente comprometidas com oração, santidade e missão.

    Com o passar das décadas, novas expressões surgiram.

    Movimentos com forte ênfase em cura divina e evangelismo de massa ampliaram o alcance do pentecostalismo nas cidades brasileiras.

    Posteriormente, correntes que passaram a ser identificadas como neopentecostais introduziram novas linguagens, novas estruturas administrativas e novas ênfases teológicas, especialmente na área de batalha espiritual e prosperidade.

    Paralelamente, experiências carismáticas atravessaram igrejas históricas, mostrando que o fenômeno pentecostal não se restringe a uma única tradição denominacional.

    Essa diversidade histórica revela que o pentecostalismo não é homogêneo.

    A pluralidade também se manifesta no campo teológico.

    Dentro do próprio universo pentecostal há diferenças relevantes na compreensão da graça, do livre-arbítrio, da segurança da salvação, da santificação e da escatologia.

    Grande parte do pentecostalismo clássico brasileiro desenvolveu-se em diálogo com a tradição arminiana, enfatizando a responsabilidade humana diante da graça divina.

    Em outros contextos, há aproximações com perspectivas reformadas, além do surgimento de produções teológicas contextualizadas na América Latina, na África e nos Estados Unidos.

    Ignorar essa pluralidade é reduzir um fenômeno complexo a uma caricatura.

    No debate público, muitas vezes o pentecostalismo é identificado exclusivamente com suas expressões mais midiáticas ou controversas.

    Esse recorte parcial gera generalizações injustas.

    Há comunidades pentecostais profundamente comprometidas com formação bíblica séria, responsabilidade social, ética pública e produção acadêmica.

    Há igrejas que investem em educação teológica, ação social e missões transculturais.

    Tomar uma parte pelo todo é intelectualmente inadequado.

    A pluralidade, contudo, não significa ausência de identidade.

    Apesar das diferenças internas, há elementos que atravessam as diversas expressões pentecostais, como a centralidade da experiência com o Espírito Santo, a crença na atualidade dos dons espirituais, uma espiritualidade participativa e um forte impulso missionário.

    O desafio contemporâneo não é negar a diversidade, mas discernir o que pertence à essência do movimento e o que constitui expressão cultural ou contextual.

    O pentecostalismo brasileiro amadureceu.

    Ele deixou de ser apenas um fenômeno periférico e tornou-se ator relevante na cultura, na política e na vida pública.

    Esse novo cenário exige maturidade teológica e responsabilidade intelectual.

    A pluralidade do pentecostalismo não é sinal de fragilidade, mas de vitalidade histórica.

    No entanto, vitalidade sem discernimento pode gerar confusão.

    Por isso, compreender a diversidade interna do movimento é passo fundamental para um diálogo público mais honesto e para uma reflexão teológica mais consistente sobre sua identidade e missão no século XXI.

     

    Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio.

    Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.

    * O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

    Leia o artigo anterior: A graça de Deus e a relação com o poder do Espírito Santo

     

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    Fonte: Guiame